Cartografias da saudade

Novo Livro de Ivete Nenflidio


Novo Livro de Ivete Nenflidio
"No fundo, escrevo para perdurar, p'ra existir": a poesia de Ivete Nenflidio
por Tamires de Carvalho
Antônio Cândido, no livro "O estudo analítico do poema", disse que os poetas não se cansam de nos mostrar a contraditoriedade da vida: amor e ódio, prazer e dor, medo e vontade, estão sempre juntos. Muito antes que a psicologia moderna pudesse explicar a realidade sobre os sentimentos humanos, lá já estavam os poetas. Nas palavras do crítico literário, “a arte percebeu antes da ciência”.
Nos poemas de Ivete Nenflidio, em seu mais recente livro "Cartografias da saudade", sentimos com clareza esse caráter contraditório da vida. Essa dualidade que hoje entendemos como sentidos opostos que se complementam, assume um valor próprio dado pela autora em seus versos. 
Nos mapas de Ivete a direção é para a natureza. A força de sua poesia está na pele, na separação forçada dos corpos apaixonados, no íntimo. A coletânea transborda paixão: é chama e também cinzas; saudade que aperta e traz recordações de bons momentos vividos. É memória, é urgência. Fala da efemeridade da vida, ao passo que mostra ser essa, também, a sua constância.
Em “Virgínia”, “sobre a ancestralidade do Vale do Jequitinhonha”, dedicado à avó da escritora, vemos a narrativa da tradição feminina passada ao longo de gerações: benzedeiras, parteiras, mulheres portadoras de uma sabedoria ancestral. “Mulheres de Minas”, como diz a poeta, em uma exaltação não só do interior do país, como também do sagrado feminino, que resiste apesar de tudo.
A autora também reflete sobre o fazer poético, sobre o lugar que a sua poesia ocupa no panteão literário, especialmente nos versos de “Quem me dera”. Fala sobre a voracidade do fazer arte. Em “Pintura”, que fecha a coletânea, Ivete traça um cenário em que o pintor é ao mesmo tempo regente da arte e regido por ela.
São versos com alma, e o ritmo nos convida a percorrer todo o caminho trilhado pelo artista para dar vida ao seu trabalho: tela escrita com tudo aquilo que transborda. Experimente aqui ler em voz alta. É possível que você veja o pintor fazendo seu esboço, dando significado aos rascunhos, em uma dança que acompanha o ritmo do coração. Talvez você sinta o cheiro da tinta.

“O artista, apaixonado pela sua criação,
se entrega à paixão e ama delicadamente sua
mais recente obra-prima.” 


“Cartografias da saudade” é um livro de afetos. É poesia que clama por calor e por suor. É uma experiência inebriante de leitura.

POemas - Cartografias da Saudade


POemas - Cartografias da Saudade
Ancestralidade e o tempo...


Quem me dera
Meus poemas?
Ah! São tolos…
Tenho versos ordinários, porcos…
São sintéticos, como flores de plástico.
São como borralhos de cinzas podres,
estão mais para ditados populares,
são como o gosto amargo do tabaco
do cigarro que trago,
São como cais desertos,
distantes de seus barcos,
sim, são assim, são rasos, vagos,
são como nós-cegos.
Não são como as ardentes e conscientes palavras de Pablo,
estão distantes das espantosas metáforas de Eduardo,
não são como as fabulosas passagens lúdicas de Mário
e estão longe dos enigmas mirabolantes de Jacques…
Não revelam as profundezas da alma como os versos de Clarice,
e não se parecem em nada com as palavras do boêmio e faceiro Charles,
não são como os surpreendentes livros de Rosa
e estão anos-luz do realismo de José…
Não são como a solidão lascívia de uma Florbela,
não revelam a vanguarda como Abaporu,
não afrontam como Pagu,
e muito menos estão nos versos doces e adoráveis de Cora.
Quem me dera escrever poemas e dedicá-los a Cuba, assim como fez Neruda,
ou defender o povo latino-americano, como fez Galeano.
Quem me dera fosse tão humana como Quintana.
Quem me dera ter o senso de humor de um expert como Prévert.
Quem me dera fosse um grande escritor, assim como a imensa Lispector.
Quem me dera escrever como Freire, Voltaire ou Baudelaire.
Quem me dera decifrar todas as cores de Guimarães,
ou ter a lucidez e as palavras de afago de Saramago.
Quem me dera encontrar as palavras francas de Espanca.
Quem me dera quebrar tabus como fez Pagu.
Quem me dera retratar indígenas, negros, favelas e vilas como fez Tarsila.
Quem me dera fazer brotar nos meus tachos a doçura de Coralina…
Ah! Quem me dera! Quem me dera!
De que vale a minha arte, se não existe para quem?


Virgínia
Sobre a ancestralidade do Vale do Jequitinhonha! - Para minha avó 
Divino agrado com seus terços sagrados.
Velha rezadeira, também era santeira,
cantava suas dores,
alegrias e glórias,
lâmias de gestos puros,
memórias,
fé e alegria.
Era protetora,
sábia guerreira,
maga de bom coração,
afetuosas ações,
emoção e doação.
Apreciava a beleza das procissões,
oração que abraça,
a perseverança e a graça,
criava suas poções no rio que purifica...
São Margaridas, Virgínias
e muitas Marias,
com seus dons naturais,
suas curas divinas...
Mulheres de Minas
Curam as dores da alma,
as dores do corpo
e toda a carência,
são protetoras das matas,
das florestas,
das plantas,
rezam pela colheita,
e lindos oratórios enfeitam,
com seus vestidos de chita,
altares de santos
e violas de fita...
Encontram outras vias,
declamam suas liturgias,
são vozes,
entidades,
seres sagrados...
Manifestam bons presságios,
se banham nas águas dos rios,
jogam seus búzios,
são mulheres benditas
e também acuadas,
são as escolhidas...
E sofrem e lutam
e choram e cuidam,
rezam para a Virgem
e para os deuses da natureza...
Estão espalhadas por todo o país,
criam suas alfaias,
oferendas nas praias,
rezam para o povo abandonado,
tiram o azar,
o olho gordo, o mau-olhado,
curam a inveja,
o quebranto, o cobreiro
e a brotoeja...
Seus rituais são de amor,
de fé e de cura,
são símbolos da nossa mistura,
da nossa cultura,
são curandeiras,
benzedeiras, são parteiras,
são bruxas, são feiticeiras,
são mulheres adoradas,
empoderadas,
cultuam memórias sagradas!
Possuem energias curativas,
rezas para germinar,
são emotivas...
Queimam suas ervas para a tempestade afastar!
Cura pela intercessão,
purificações, superações,
aflições, nobres atribuições...
São práticas de amor
São lavadeiras,
rezadeiras, raizeiras, parteiras,
com seus encantos e cantos,
contentamento e muitos ensinamentos...
Vai pelejando, curando, plantando
e, pelas suas mãos, uma nova geração!
E mesmo iluminando caminhos,
ainda são perseguidas,
punidas ou impedidas,
seja na inquisição,
na anulação ou na extinção,
seus valores são questionados,
seus saberes eliminados.


Relógio
Como os lençóis quarando nos varais,
o tempo me embranqueceu,
não reconheço o que vejo.
No espelho, essa face não é minha,
esses olhos não são meus.
Minhas mãos manchadas,
minha pele cálida
e esse coração
que bate descompassado,
apegado ao passado,
sabe bem que a tua ausência me feriu
e a dura lida me envelheceu.


M’alma tem pressa
Tenho saudade de um tempo
em que não pensava tanto na morte,
em um tempo em que eu era mais forte,
m’alma tem pressa,
tento ganhar tempo...
Tempo escasso,
tempo finito, tempo incerto, tempo...


Velha casa
Examino minuciosamente as cartas
e a saudade me invade,
lembro-me das paredes
da velha casa onde nasci.
Pintura caiada
de branco e azul.
Penso na maternidade, que é sofrer,
no tempo da mocidade
e em tudo que há por vir.
Vejo, no retrato,
a efemeridade de minha avó
e me vem outras palavras,
bondade, caridade,
a pureza da santidade,
o crer na divindade,
a Divina Trindade,
o Pai, o Filho e o Espírito Santo.


Memórias
Âncora poderosa
Foi cuidado, abrigo, doçura e proteção
Força que harmonizou embarcações
Foi sabedoria, grandes ensinamentos
Acalmou corações
Chuva...
Varre dos olhos a terra cor escarlate
Pássaros de eternas lamentações...
Acauã não mais noticia a morte
Anuncia o renascer
Sepultaram o apoucado corpo
Ascendeu o sagrado temporal
Findou a tempestade
Banhou de silêncio
Germinou semente
Fez-se flor,
brancos lírios de pureza sublime
Saudade,
palavra que define.


Sinais 
Tento recuperar algo
que ficou no passado.
Tenho olhos cansados,
o peso das tragédias,
a palidez...
Estou a enrugar,
embranquecer,
esmorecer,
definhar,
com marcas que invadem
todos os espaços desta face,
deste corpo,
deste pergaminho,
com rabiscos confusos
que sinalizam minhas escolhas,
meus caminhos.
Em meus olhos,
visão distorcida.
Escassos passos,
ao relento
o silêncio me acalma
e a brisa do vento
remoça m'alma.


O que me persegue
Como seres inanimados,
sou intangível,
vivo só no inabitado casarão.
Sou como uma assombração,
estou a abrigar-me no exílio.
Aqui sou um desconhecido,
sou apenas o novo inquilino do domicílio.
Sou como um quadro velho,
enterrado no baú de destroços abandonados.
Estou embolorando neste casebre,
pareço-me com a desbotada pintura,
que escondida,
longe do sol,
fica cada vez mais verde,
cada dia mais insalubre.


Céus
Com os olhos no infinito,
viajava por misteriosas aparições,
refletia sobre a vastidão
da ordem da criação.
Numa noite qualquer,
observando constelações,
pensando sobre os mistérios do universo,
descobri que pouco sei
e tão pouco saberei
das dores e insurreições.


O silêncio da morte
O silêncio da morte é como faces abatidas,
esmorecidas...
como câmaras mortuárias,
como o silêncio de antigas bibliotecas,
esculturas do sepulcro,
como a quietude das capelas sem foles,
criptas com estátuas estateladas,
pedra branca esculpida de olhar choroso,
como tumbas grandiosas dos faraós,
como arquibancadas vazias,
como cortinas fechadas do proscênio,
como o fim do espetáculo.


Tocante Urutau
(Prenúncios da Mãe da Lua)

Afogo que afunda,
algo que finda...
Para sobreviver, busquei novos pares,
naveguei outros mares,
vibrei distintos ares.
Não consegui encontrar a cura,
largar a loucura, tantos vícios.
E sobre o pano branco,
todas as peças dos búzios,
muitas revelações.
Epifania...
Sou sonhador de velhas utopias...
Juras, injustas promessas, ataduras,
tristes caçadas!                                                           
Sangro, sinto, suporto...
Meus olhos cansados,
olhos de areia...
Singro no alto-mar,
controlo as velas da embarcação,
uma luz de candeia ilumina a escuridão,
uma infusão de ervas de benzedeira
esquenta o corpo cansado
e no peito todas as guias, minha proteção...
A tempestade chega
e no mar revolto
observo um ato de amor,
uma mão que salva...
Então recordo os presságios da anciã,
histórias da mandingueira,
velha matreira que movimentou sua manivela,
profetizou a solidão
e a fúria dos mares
e decifrou a triste sina na estreita viela
Agora recordo as mensagens do antigo realejo,
tristes prenúncios nos caminhos de águas turbulentas,
lembro das estradas de pedra
e sigo decifrando as adivinhações
daquela mulher misteriosa da deserta colina,
da rua estreita que leva ao antigo farol.
Lembro da luz,
clarão de um velho lampião,
uma chama,
uma clareia intermitente
e o canto vibrante
e choroso do tocante Urutau...


Pedido ao vento
Com os cabelos esvoaçados,
como nuvens confusas,
pedia em verso,
prosa e melodia,
que os ventos
levassem meus poemas,
me tirando da escuridão,
clareando meus dilemas.


Morte
Se um dia eu ficar sem norte,
se um dia bater à minha porta a morte,
e sem ar, sem poder respirar,
ela me abraçar,
não fique triste,
não há motivos,
emotivo ficarei de ver-te triste...


Coisas
Um grito preso na garganta,
alguém que canta
O desabafo do fotógrafo,
o ato,
um fato registrado,
o retrato
Um pássaro triste na gaiola
e uma canção do Cartola
Um livro inacabado,
um poema publicado.


Sonhar
Em sonhos te vi.
No despertar, 
no espelho, 
no registro 
do meu tempo,
engendrei 
antigos sentimentos.




Você vive dentro de mim
e por um momento
velhas memórias emergi.
 
 
 
O livro das saudades...
 

Citações
Sou um livro,
com páginas desocupadas,
folhas cruas.
Nas linhas,
enredos de uma vida fugaz,
frases no sentido figurado.
No diário,
páginas arrancadas,
p’ra omitir o pecado.
Alguns caracteres leves,
outros estafantes.
No fundo,
escrevo para perdurar,
p’ra existir,
escrevo,
p’ra seguir em frente,
escrevo, porque é preciso resistir.
Para que não fique ausente
o que tenho p’ra dizer.


Mania de você
Me acostumei ao teu sorriso,
às tuas juras eternas,
à tua respiração ofegante,
ao roçar das tuas pernas.
Me habituei
ao beijo molhado,
ao toque que atiça meus sentidos
à margem do teu peito suado.
Me acostumei ao refresco das tuas águas
na beira dos meus lábios,
no desejo que transborda,
que inunda,
que banha o nosso quarto de dormir.


Imemorial
Nos catálogos,
meus olhos atentos
rastreavam,
delineando teu nome,
pedaços riscados.
Nos telefones rotativos,
dedos grudados,
números discados.
No confinamento
das cabines telefônicas,
um telefonema,
a espera,
um rabisco,
um poema.
Nas mãos suadas:
um guardanapo,
uma ficha,
uma mensagem,
um recado,
interferências,
ruídos,
o gancho,
o fone no ouvido,
uma linha cruzada,
o pescoço inclinado,
uma súplica,
um pedido,
a lembrança
de um toque,
uma voz do outro lado...
A espera:
um alô,
um homem na fila
esperando a sua vez,
o medo de um “até logo”
ou um engano, talvez.
Buscava por ti,
nas esquinas
e nas ruas paralelas,
costumava procurar teu nome
nas páginas amarelas.


Tudo passa!

A tristeza por
alguém que partiu,
o rancor por
aquele que traiu.
O cheiro do doce
no tacho,
a primeira
cartilha,
o dia da triste
partilha.
Tudo passa...
O rastro do
cometa no espaço,
os primeiros passos
do rebento,
o coração apaixonado
e o primeiro
beijo sedento.
O enjoo e os
olhos de ressaca,
o grito da torcida
e o gol de placa.
As lembranças do
joelho ralado
e o grito de dor,
as promessas
não cumpridas
do governador.
Tudo passa...
A beleza da pele jovem,
a tempestade,
a precipitação que se forma
nas nuvens.
A cobrança
e os contratos
não cumpridos,
a tristeza por tudo que foi
tolhido,
os cabelos compridos.
Tudo passa...
a longa
e acidentada viagem,
a árvore desfolhada,
o frio que congela,
a neve,
a madrugada,
o ipê florido,
o deleite,
o calor,
a visita do Beija-flor,
a inocência,
a paciência,
a tolerância,
a espera,
o primeiro amor!


Renego
Não quero este aperto,
sentir este nó na garganta,
de nada adianta
sucesso, dinheiro,
se longe de ti ficarei.

Não me acostumo
às feridas abertas,
aos espinhos do caminho,
cicatrizes cada dia mais expostas.
Tenho um olhar atento
e sedento,
hora pranto,
hora encantamento.
Não tenho palavras evasivas,
estou despida
e a correnteza banha meu corpo,
leva p’ra longe
todas as minhas certezas.


Querer
Quero noites delirantes,
quero me perder,
respirar-te por inteiro,
e em meus braços te prender,
sentir teu gosto,
e esse
ficar impregnado
em minha boca,
quero me confundir
nos teus lábios,
sufocar de prazer!


Libido
Quero um amor
que arremate,
quero ser amada,
quero um beijo
que me leve ao limite,
não quero
viver armada.
Quero em teus olhos
contemplar
meus pensamentos,
quero ouvir
doces palavras,
segredos
ao pé do ouvido.
Quero beijar
teus dedos
em delírio violento,
quero o coração
acelerado,
lépida atração.
Quero que seja intenso,
no início,
meio e fim,
quero que conheças
todas as minhas fronteiras,
que dure a vida inteira.
Quero experimentar
em mim
tu’alma,
nosso alento.
Quero escrever
um livro,
dos meus,
dos seus,
dos nossos
melhores momentos.
Quero o desejo aflito,
fervendo o meu sangue.
Quero todos os sentidos,
o toque,
o cheiro
o gosto
Quero em meu íntimo,
no repouso
do teu peito
de sons
descompassados,
sucumbir,
corpo largado.
E, depois do amor,
escrever um poema
ganhar uma flor.
Fora tudo isso...
Quero no meu corpo
a chama,
beijos febris.
– Entregue a um fogo
que nunca se apague.
Quero um amor sem fim,
quero a paz pequena,
serena...
Quero ser plena!


Me comovo
com as tuas lágrimas,
com a tua fala,
com tua arte,
renuncio ao árido,
desfaleço 
depois do beijo roubado.




Alma sedenta
Quero:
Ficar acordada
nas madrugadas.
Quero pupilas dilatadas,
a tua poesia,
o frio na barriga,
a taquicardia.
Quero neste momento,
o silêncio, os tremores,
os suores noturnos
e em meu rosto,
uma brisa ligeira,
um sopro e o vento.
No ato:
Quero todos os sentidos,
a intimidade do tato
com gestos delicados,
o sussurro assanhado,
teu gosto,
teu cheiro,
teus olhos nos meus...
Quero ser tua
madrugada afora
e provar
tudo que incita,
que aflora.


Saudade
Tenho saudades
da tua respiração arfante
depois do amor
Sem ti,
as noites são intermináveis,
preciso do seu ócio,
do café,
da poesia,
do som do instrumento,
da criação da melodia.
Te espero
e a incerteza me acompanha,
me faz tremer.
Nosso amor que era fogo
virou cinzas.
Disseste que sou um anjo,
mas cortaste as minhas asas.


Lume
No breu, procuro
a brasa,
uma faísca,
um afago,
o fogo,
a luz dos olhos teus,
uma luz que te acende,
teus lábios,
tuas mãos,
a química,
o encaixe perfeito,
o doce beijo roubado.


Olhos nebulosos
No dia de domingo,
uma despedida.
Na janela,
a partida,
um adeus.
Observo calmamente
o bailar
dos vestidos de algodão,
dançam uma dança estranha,
hora movimentos
assanhados,
hora movimentos
acanhados,
estão nos varais
arrugar.
Secam como a flor
no canto da sala,
pobre flor,
sem seu desabrochar,
busca a luz
e a distância
inabitável
a persegue como sombra.
Pobre flor,
encurvou tanto
que quebrou seus galhos,
flor com corcovas,
perde suas águas,
morre lentamente,
esvai,
seca como os vestidos
dançarinos.


Desvio
Deslize no meu abismo,
desfrute da fruta do pecado,
dou-lhe um abraço,
braços fundidos,
um corpo emaranhado.
Alma e desejo,
toque,
ondas,
suores,
dedos confundidos.
Abundante transfusão,
fogo e água.
Rito mudo dos que amam.
Entre as bocas um adeus,
talvez a eternidade
um aconchego,
música incessante,
som de todos os sentidos,
um sereno banhando
os seios,
a rede,
o devaneio,
o lago,
o aperto,
o conforto, o laço.


Tocata
Tu és aquele que
visita minha cama,
canta a serenata,
inventa a precipitada
palavra,
leve e calma,
canta baixinho
em meus ouvidos,
toca minha língua,
beijo embriagador.
Tu inventas
outras formas
de amor,
prisioneiros
deste rio sutil,
úmido e quente,
que transborda,
no aconchego da m’alma.


Nosso tempo
Sonhos que jamais envelhecerão,
você no meu íntimo,
espasmos,
suspiros, sussurros,
correntes,
lágrimas,
um leito,
as águas,
impulsos apaixonados.
Tu a sugar-me inteira,
cravando minhas
nuvens de chuva,
rompendo minha carne,
morte suave.
Amor divino, ilhado
e a paz que se instaura,
ondas de carinho,
um cigarro,
um trago
e algumas comidinhas
p’ra depois do amor.


Efêmero
Lá de cima,
fito o mar alto,
definitivo,
que me faz lembrar
de um tempo,
tempo antigo.
Tempo do nosso
primeiro encontro,
tempo que éramos amigos.
Tempo que acordava
no meio da noite,
despertada
por um toque apaixonado,
sombra,
meia face,
silêncio,
meia luz...


Desertos
Hoje, vivo
no disperso retiro,
muros introvertidos
e calados.
Sofro em silêncio,
agarrada ao passado,
enclausurada
em minhas falhas memórias,
observo os retratos,
leio suas cartas
e sua poesia...
Assim vivo,
um dia de cada vez...
Tenho saudade
de tudo que é ausente.
Amando-te,
Sonhei,
asfixiei...
Idealizei palavras
que não existiam.


Candeeiro
Luz de candeia
iluminava nosso quarto,
eu te acolhia.
O casaco estendido no chão,
a lamparina
fixada na parede,
as cortinas voando,
no canto a terminalidade das flores mortas,
a luz refletida em seus olhos,
seus contornos...
E numa noite qualquer,
tu me prendias em seus braços,
mordia meus lábios,
sorrisos,
desejo que lateja,
boca, dentes,
m’alma em chamas,
tu brincavas
com o meu decote,
enquanto
tragávamos a água ardente.


Apartação
Na nossa pequena aldeia,
não existe arrebentação violenta,
não existem riscos
na barreira de corais.
Na nossa pequena aldeia,
conseguimos prever
os temporais.
Conseguimos observar
a frondosa vegetação,
tirar do mar
o nosso pão...
Na nossa pequena aldeia,
desbravamos
os segredos do céu noturno,
desvendamos
pouco a pouco
o significado
de todas de todas as palavras.



Por trás daquele monte,
a nossa sólida embarcação 
é o nosso éden, 
em meio a tanto verde, 
onde a vista se perde, 
onde nossos corpos 
sedentos 
colidem, 
é nosso paraíso na Terra.
 


Morte
Moro na ilha,
às vezes morro
nas profundezas,
na lida,
outras vezes moro
no raso,
atravesso espinhaços,
morro em seus braços.


Paraíso
Te espero,
fico à espreita,
na estreita passagem,
de casas azuis,
de gigantescas pedras
retiradas da terra,
de antigas eras,
fundidas na montanha.
Na manhã,
um forno de barro,
floreiras na janela,
meu pé descalço,
uma bebida quente,
ladeiras,
ruelas,
aqui,
todo dia é primavera.


Cicatrizes milenares
Pelo corpo,
marcas de um tempo
afogando,
gotas,
triste paisagem.
Os sons,
arrebentação,
a espuma,
o sal,
a miragem.
As ondas que quebram
dissipando
meus rastros,
desequilibrando meus passos,
búzios que atravessam
meus pés,
torturante,
rasgo cortante.
O avanço e o recuo do mar,
o sal me acompanha, 
penetra em meus poros,
curando as feridas...
Corais...
Aquarela viva.
O que me impede?
– Os temporais.


Medo
O tempo é incerto
e afogo
minhas dores no mar,
o medo é meu inimigo,
prefiro dominar.
Ao lado dos amigos,
me afogo no álcool,
fico sentimental.
Os monstros não existem,
nada é real.



Por um instante,
lembrando do nosso amor, 
pude mergulhar
e o tempo 
se perdeu, 
a estrela 
se desprendeu 
e fez-se o clarão 
lá no céu.
 


Pedido
Lendo toda a sua imensidão,
na nossa casa,
nesta embarcação,
percebi que nada me impede
de chegar,
nada pode me afogar,
nada tira meu ar.
No dia que te conheci,
espaço encoberto,
a neblina era como um véu,
nesse dia,
de joelhos,
olhando para os céus,
te pedi para Deus.


Casual
Foi no inesperado
que te encontrei...
Tu, percebendo a fragilidade
do meu ser,
admirando profundamente
o meu olhar enternecido,
observando
a quietude dos meus lábios,
descobriu
todas as minhas fases,
aprendeu
a decifrar os meus mistérios
e a ler o infinito
da minha existência.


Um quadro
Diluindo minhas dores
com pinceladas coloridas
e gotas de orvalho,
pintei tua boca,
tuas mãos
e teus olhos...
Na beira do riacho
compus arte,
retratando trechos,
estradas
e todos os meus anseios...
Sonhando todos os caminhos,
confessei
em encadernações
todos os meus desejos,
todos os meus pecados...
Rabiscando,
fui compondo
sonhos,
beijos,
quereres e abraços.


És ventania
Tu és como ventania,
a força dos ventos
alísios do Sul,
és um sopro
quente e úmido,
que me salva do abismo.
Tu és o sereno,
brisa molhada
que refresca
e aos poucos,
vai acalmando m'alma.
És centelha
que instiga meu corpo,
alimenta meu fogo.
Tu és como um oásis,
que dissipa
minhas preocupações,
levando para longe
todas as minhas inquietações.


Um pedaço de mim
És terrível,
inacessível,
atiça meu corpo
provocando
todos os meus sentidos,
depois parte
levando consigo
um pedaço de mim,
deixando meus olhos
sedentos de ti.


Votos
No nosso quintal,
me encontre no jardim,
seja como flor,
rancho de céu celestial,
seja como for,
me guarde no seu interior.
Juntos estaremos
no nosso pequeno Éden,
prometo ser justa,
na invernada
e na estiagem,
na tempestade,
no estio ou na geada,
serei tua,
serei sempre sincera,
serei primavera.


Segredos
Estamos sempre sonhando,
sonhamos
com os nossos desejos,
os mais profundos
e secretos,
sonhamos com os projetos
inacabados
e seus prazos apertados.
Sonhamos
lembrando dos afetos
e sofrendo
com sonhos perturbadores
cheios de desafetos.
Seja discreto,
direto,
confuso
ou sobre aquele amor secreto,
estamos sempre sonhando.


Sofrer
Hoje é tempo de travessia,
nadar contra a maré,
sobreviver,
vencer mais um dia,
nadar contra a correnteza
e chegar na beira do mar,
vou a nado,
vou a galope,
vou correndo te encontrar.


Hesitante
Meu amor,
és como um oceano
de mistérios,
hora inquietação,
hora calmaria.


O que farei sem ti?
Nosso romance
de linhas quebradas,
era minha quilha,
meu equilíbrio...
Nos caminhos flexuosos,
quase sempre
vivíamos no mar em fúria,
mesmo assim
era nosso abrigo,
cheio de canto e poesia.
Hoje, só consigo lembrar
da despedida.


Desequilibrada
Apesar de minhas renúncias
e loucuras,
guardo comigo a certeza
de que sempre te amarei.
Quando te afastaste,
com os bichos
falei,
da terra me aproximei,
com o pássaro andarilho
lamentei,
chorei
ouvindo sua cantiga preferida,
preparando seu prato eleito,
lastimei,
me feri com as plantas,
com as ferramentas,
sangrei...
lendo suas poesias,
sufoquei,
arfei
perfumando nosso quarto de dormir,
na tempestade
afoguei,
lembrei de um tempo de paixão
e encanto,
senti a mais triste solidão.


Te vi
Era tanto mar
e eu apenas te vi...
Te vi submergindo
com seu arbalete,
arpão armado,
para o impiedoso abate.
Vi o sol derretendo no mar,
lembrei do tempo
de sentir,
tempo do contravento,
tempo de velejar.
Te vi...
A correnteza da ventania
resolveu te levar,
a rajada dominante
te perseguiu.
Tu tentaste se libertar
das correntes de águas fatais.
Tentaste, mas estava aprisionado ao passado,
preso à sua triste condição,
enclausurado na velha embarcação.


Conhece-te!
Se queres saber
a sua vastidão:
–Amplie o teu olhar à beleza,
observe as florestas,
vales,
todas as curvas do rio,
todas as nuances
da montanha mais verde,
as selvas,
estradas,
relvas,
trilhos
e caminhos.
Perceba o encanto
do canto dos pássaros
e a força da natureza.


Lumiar
Procuro por ti
e luto por esse amor
que naufragou.
Meus pés calejados
subiram penhascos,
viajaram descalços.
Estou a observar-te. 
Vejo-te
do alto da fraga,
venha me ter,
espero por ti...



És tudo o que anseio
nesta noite sem lua,
és tudo que desorienta 
os meus pensamentos,
afugenta a realidade 
nua e crua,
trilhei os vestígios,
tu vives 
nos meus devaneios.
 
 

Mar
Que estranho fascínio tens pelo mar,
és pescador
e os astros te guiam.
Sei que respiras o vivificante ar
Observas a vastidão,
vives nas águas,
tragas seu fumo e a maresia...
Segurando tua guia,
com a mão no peito,
adentra com respeito,
pede permissão.
Penso no tsunami que varre,
tomo fôlego,
não poderia viver no mar.


Medos
Nos meus sonhos
a dualidade se apresenta,
energias opostas,
equilíbrio dinâmico,
enredos cheios de segredos,
pesadelos que retratam os medos.


Cura
Às vezes você me abraça sonolento
para que o terror
não invada a noite escura,
para que eu não pense
na desventura,
para que eu não respire
tanta amargura
e possa acreditar
que ainda existe cura.


Metal líquido
A vida te ensinou a desatar 
todos os nós do passado.
Aos poucos,
foi se libertando das amarras,
não era mais um oceano impreciso,
apesar dos perigos,
dos traumas,
não era mais inquietação,
era afago.
Eliminando as Lembranças,
memórias entorpecidas...
Recompondo...
Como o metal líquido
lentamente aquecido,
unindo os pedaços,
os cacos,
os destroços.


Amor
Na incansável busca,
em algum momento,
no silêncio,
se deu o encanto
e fez-se o encontro.
Me amaste,
eu também te amei.
Tu, costumavas ser uma rocha,
eras fortaleza,
tinhas todas as certezas.
Hoje não te cobras tanto,
és vento fresco,
brisa, calmaria.
Já não conta com o certo,
aceita as incertezas,
aguarda um novo dia.


Águas
Amado!
Não foges mais,
arrisca-te!
Venha!
Apanha-me inteira,
corpo e alma,
me sorri
com seu riso alto,
com seu sorriso de menino.
És açude,
água doce,
bebida que cura,
água para minha boca sedenta.


Teu nome
Se tu fosses uma palavra,
certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou te chamasse de caminho,
mas não qualquer um,
tu serias aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamar-te de mistério
ou de infinito,
já que não posso imaginar tua dimensão.
Teu nome poderia ser chuva,
rio ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do teu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos
e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra de ti.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem,
esperança,
memória,
sem dúvida,
teu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e tu terias nome e sobrenome.


Nômade
Você não estava presente,
nem fisicamente,
nem nos meus planos,
confesso!
Virou minha vida do avesso,
me deixou confusa
e essa alucinação,
esse desafio
que hoje atravesso,
deu lugar a aventura,
e no descuido,
na precipitação,
nos perdemos.
A tristeza habita meu corpo,
invade, sobrevive,
caminha porta afora,
ressurgi, domina,
está no entardecer,
me encontra na aurora.


Metamorfose
Transformo-me,
mudo,
renasço,
refaço-me.
Serpente,
que deixa no caminho
as marcas
da antiga casa.
Meu corpo também reduz,
também deixa marcas.
Muda...
Sem armaduras,
envoltórios, conchas, cascos,
me apresento nua,
sem nada a esconder,
despida,
desarmada, tua.


Mar aberto
Observará o mar,
varrerá a lua
e no bailado dos barcos,
embriagada,
afogará nas águas glaucas,
águas insalubres.
No revés da embarcação,
no triste tempo do naufrágio,
no dramático desfecho,
colidirá,
encontrará com a morte.
Cumprindo a profecia,
terás o corpo atirado ao mar.
Nas profundas águas,
grãos de areia, 
poeira, agitação
e o inesperado...
Mãos,
braços remos,
um estranho,
a salvação.
Ele te resgatará
e aos poucos tudo
se transformará
em silêncio, calmaria.
Na aguardada travessia,
deitar-te-ás na ilha,
na areia fofa e macia.
Receberá a respiração
boca a boca.
Lábios do livramento.
Voltará!
Regressará do mar.


Cólera
Quero atirar-lhe
os pratos!
Mas que culpa têm as louças?
O melhor é
retalhar esse contrato.
Minha doença é te amar
e ainda acreditar
que ao teu lado
posso me abrir, me rasgar.
Construo versos,
te amando
invento motivos.
Você diz
que tudo é bobagem,
ri da minha pirraça,
depois me abraça,
me prende com força,
brinca
e faz graça.


Sem respostas
Pergunto:
Até quando?
Digo à minha estrela
que há doze luas cheias
não te vejo,
mais uma primavera.


Aprendi
Aprendi
que não se aprende poesia,
mas pra ti,
escrevo em verso e melodia.
Tenho pensado
e sofrido,
lutado p’ra esquecer,
mas como faço
p’ra sufocar
esse imenso prazer?
Vivo presa,
um rio de memórias,
as nossas lembranças,
um guia para os meus versos,
um instante infinito,
os astros,
os cartógrafos,
seus manuscritos.
Bebo, morro, renasço...
Preciso extravasar,
esquecer,
parar de morrer.
Não quero mais essa sombra
a me perseguir
Não quero mais esse peito
corrompido,
dilacerado,
sofrido.


Morro por ti
Te vi morrer, te vi sem ar,
sem poder respirar.
Era tanto mar...
Te vi desaparecer
e por mais braçadas que tu desses,
ficavas cada vez mais distante da costa,
e eu pensava na última carta
e na triste resposta.
Sem propulsão,
sem fôlego,
te vi partir...
Na eternidade te guardarei,
te amarei...
Agora parto,
me retiro,
também morro por ti.



Sou como meus versos:
viajo leve
até lhe encontrar. 
 


Lua
Temos nossa rede que balança,
nosso canto,
nosso remanso
e no alto do farol,
uma luz débil continua a piscar,
mostrando a direção,
provando que ainda é tempo de sonhar.


És rio, menino
Pensas que és mar!
Desconcertante oceano azul com correntes gélidas e silêncio arrebatador,
com águas glaucas
e gosto de lágrimas insalubres
que, migrando sob distintos rumos,
afunda naves em grandes naufrágios,
em revoltos maremotos.
O Deus Netuno mostra sua força,
buscando mistérios escondidos em cavernas,
por vezes mostra-se calmo e disfarça,
acalentando a velha canoa ancorada na praia,
num pacato bailado de melodia dissonante.
Atinado, insidioso,
mar fatalmente traiçoeiro,
organismo absoluto poderoso
com ondas ferozes, abatimento mortal,
faz desaparecer ínsulas, escava rochas,
revela sua fúria e exibe o interior da íngreme falésia de taludes
de tons alaranjados e cor de mel.
Amado...
Não és mar!
Não és raso e nem esse fundo arrasador!
Conheço-te!
Não és espuma, nem sal!
És rio!
És doce!
E procuras navegar novos leitos,
és água que verte...
Tu...
Rio menino,
rio que transborda,
rio que contorna os obstáculos,
rio que extravasa à procura de novos canais,
rio que flui,
água doce que preenche a cisterna,
que banha o solo,
que traz esperança,
que faz brotar o sustento,
que transborda a moringa.
És Rio doce, Rio Menino!
buscas a correnteza,
buscas novas aventuras.
Em noite banhada de luz,
teus olhos reluzem, cor de avelã.
Amado...
Tu sais à procura de um lugar de cavas profundas,
lugar onde encontrarás o justo repouso,
rio banhando,
rio aguando,
Eu?
Sou leito árido,
Tu...
Rio que mata a minha sede!


Canto solo
Passarinhei, sou passageiro,
viajante, embriaguei...
Eu te neguei, te procurei,
e na triste dualidade,
ausência que verte,
me vi partir, repartir,
sonhei te encontrar
e segui para te achar.
Sou viajante dos oceanos
e ando te negando,
observando, velejando.
Busquei outras formas de respirar,
sentir o vento
e sei que exagerei, fiquei confuso,
dilacerei de tanto ar,
de tanto mar
e cheguei no fundo,
no limite
e por segundos
virei espuma
e, em cacos, desapareci.
Sou imperfeição,
sou canto solo,
sou confuso,
sou humano,
sou o cometa que rompe
a pele do oceano,
sou o silêncio da solidão,
sou rio sangrando o chão!


Navegar
Precisei desbravar outros mundos
e sei que seguirei voando
e, noite afora,
vou adentrar,
rebentar as águas e recompor,
assentamento necessário,
sou canário cantador.
Observei só,
como o velho pescador que ama o mar!
Astro-rei eu me queimei,
brinquei com fogo
e me lembrei que tudo é ligeiro
e que muito desperdicei.
Agora tento te esquecer.
Sou pássaro passageiro,
sou certeiro no voo rasante,
sou vibrante, viajante,
sou de qualquer lugar,
aspirante navegador,
eu sou do mar!


A pintura
No quadro tingido de desalentos e frustrações,
o artista imortaliza suas dúvidas e angústias.
Tentando criar uma inusitada obra de arte,
o artista olha o corpo nu.
O corpo é tela em branco, onde produz graciosos afrescos,
cria em pensamentos eminentes cordilheiras,
revela traços nos seios da amada, imponentes picos.
Nas curvas do corpo nu desenha as estradas que ainda não percorreu.
Observa seu quadro inacabado, são pequenos rascunhos.
Produz esboços de divertidas nuvens de algodão
disfarçadas entre as estrias do corpo nu.
Acima do coração eterniza os momentos que foram bons.
Com a ponta dos dedos cheios de tinta
observa o painel,
enxerga o contorno de um corpo, continua compondo a pintura.
Pinta a beleza em movimento e a tempestade afável sem vento.
Pinta os dias turbulentos, agitadas formas estranhas.
Também pinta as mínimas manifestações dos dias de calmaria.
Pinta a Lua grandiosa e algumas partes encobertas,
nuvens melindrosas...
Pinta os mistérios, o dia principiando,
continua pintando a tela, corpo vazio, corpo nu.
Pinta o Romantismo, o Realismo.
Pinta o Impressionismo, o Expressionismo.
Seus olhos brilham, ele renasce.
Triste artista, pinta suas lamúrias,
continua pintando...
Pinta o calor do Sol aquecendo sua alma.
Pinta o canto das cigarras,
o som das matas.
Pinta o cheiro do mato molhado.
Artista insaciável devora sua tela,
pinta mais e mais...
Pinta estradas desconhecidas,
procura desbravar novos caminhos,
pinta o instrumento silencioso do cantador...
O olhar apaixonado do homem comum,
o som estridente da alegria das crianças
e suas lúdicas fantasias.
A tela é corpo cansado...
Precisa adormecer, é corpo exaurido, corpo nu...
Nos pés descalços,
mais e mais pinturas, pinta cada pedaço.
Não és mais tela em branco, és tela habitada de entretons.
Colorido impossível de imprimir...
Pela manhã, a mulher matizada renasce tatuada de beleza.
A arte e as marcas da pintura estão encravadas em seu corpo.
Pureza e contentamento.
Depois de pintar tão belo quadro,
o artista de olhos desconexos apenas observa.
Contempla seu ofício, admira e se orgulha...
Sua obra, tela corada, é corpo marcado de encanto.
Quadro harmonioso...
Pintura sutilmente traçada pelas mãos do artista.
Pelos dedos pincéis,
ele continua examinando o corpo nu vestido de beleza.
O artista, apaixonado pela sua criação,
se entrega à paixão e ama delicadamente sua mais recente obra-prima.

 
 
 
Mapas


Quero conhecer os recortes da cartografia do teu corpo...
Esta carta, este quadro, coloco sobre a mesa... Desse mapa, analiso cada fragmento.
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